Abre hoje no Mis – SP a exposição O Espaço que Guardamos em Nós.

São duas individuais, um recorte de minha série Aluga-se, de 2008, e o resultado do projeto Morar, do coletivo Garapa.

A exposição é realizada pela Galeria Da Rua, e tem curadoria de Isabel Amado.

Isabel teve a ideia de aproximar os dois trabalhos, que são visões distintas sobre a questão da moradia hoje.

Georgia Quintas esceveu belos textos para cada um dos trabalhos, copio no final do post,  o texto que fez para Aluga-se, e abaixo, o que fez para a exposição:

O espaço que guardamos em nós

Ocupar espaços é inexoravelmente transitar por um tempo que será o futuro da nossa memória. Difícil desprender-se de histórias e lugares. Narramos de distintas maneiras as nossas passagens por espaços que habitamos. Somos recorrentemente envolvidos pela sensação de pertencer a algum território, a um lugar que nos acolhe (ou seria que acolhemos?). A casa, a moradia e o habitar passam a ser experiências revestidas de sensações. Vivemos em lugares nos quais vamos acoplando partes de nós. Por isso, talvez, termos a desconfiança de que os lugares possuem alma.

Na experiência de morar, os cantos são braços, a sala epígrafe de afetos, os quartos gavetas repletas de devaneios. Há poesia nos cantos, há poesia nas lembranças que construímos ao viver neles. Fazemos do ato de habitar a criação de paisagens íntimas e afetivas. No fundo, os espaços e as pessoas compõem um só corpo e muitos significados. Uma espécie de transbordamento de sentidos e recordações.

Em O espaço que guardamos em nós, estas questões são trazidas à tona. Afinal, passamos a habitar imagens através da fluidez da memória, do arquivamento do tempo que retém algumas realidades e umas tantas ficções. Nesse gesto de apreender quem fomos e somos, guardamos fragmentos turvos, alegorias do passado e sensações firmes do agora. Através da fotografia, os lugares se tornam possibilidade subjetiva e documento compartilhado.

Em Aluga-se, a poética sutil e luminosa do fotógrafo Pedro David, apresenta apartamentos desabitados, vazios, na iminência que alguém restaure o seu sentido. Embora sem elementos referenciais, sem as singularidades de um “inquilino”, é nessa ausência, no silêncio, que projetamos nossas memórias e fantasias. Já em Morar, do Coletivo Garapa, a investigação imagética é volumosa, híbrida em sua linguagem e antropológica em torno de questões sobre a existência e o desaparecimento de edifícios na paisagem urbana. Por consequência, do fluxo da memória de centenas de famílias que viviam naqueles mundos. Morar nos coloca diante da problemática e das fragilidades da moradia urbana. Um exercício de catalogação de desterro pungente.

Temos portanto, nesta exposição, dois modos de contemplar territórios privados com a mesma intensidade que nos apegamos a um lugar que desejamos sempre voltar. A fotografia é irredutível quando nos amplia olhares e sentimentos, mas é ainda mais indefectível quando faz da nossa imaginação a porta para a compreensão de nós mesmos com nossos espaços. Como diria o filósofo Gaston Bachelard (1884-1962), “as casas para sempre perdidas vivem em nós! Em nós elas insistem para reviver, como se esperassem de nós um suplemento de ser”. 

Georgia Quintas


Catálogo do Salão de Abril, Fortaleza - 2009

A série Aluga-se já foi exposta no Salão Victor Meirelles, em Florianópolis, em 2008, no Salão de Abril, em Fortaleza, em 2009, na coletiva Crônicas Urbanas, promovida pelo Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia, no Museu da UFPA, em Belém, em 2011.

Instalação de Aluga-se no Museu da UFPA - Belém - 2011

Para O Espaço que Guardamos em Nós, Isabel propôs um recorte na série, de 7 das 14 fotografias. O site da Galeria da Rua mostra as 7 participantes da exposição, o meu site mostra as 14 integrantes da série.

Manchas no espírito

A fotografia nos coloca em seu justo simbolismo quando desvela a potencialidade da estética em sinergia com a poética. Paradoxalmente, sejam espaços vazios, inanimados, anônimos, destituídos de significado imediato, nossa imaginação se apega aos vestígios de nossa memória.

Em Aluga-se, o fotógrafo mineiro Pedro David, extraiu da simplicidade plástica, o enlevo dos sonhos, do prazer de olhar e de se perder por recantos oblíquos da memória. A suavidade da beleza cromática desses apartamentos protagoniza – mais do que um discurso – um fenômeno. Aluga-se emana certa fruição pelo visível que provoca a percepção atingindo a sensibilidade, o encanto, a contemplação e os sentidos.

Ele entrou nos apartamentos como um errante. Em cada espaço, vagou ao encontro de “manchas luminosas”. Teria que escolher um lar para morar. No vazio, seu olhar colou nas paredes, nos cantos. Sentiu atmosferas pela luminosidade. E na ausência de referências típicas de um lar, fez das cores o vislumbramento de lugares que imaginamos para viver.

Por átimos, desconfiamos das luminosidades capturadas por Pedro David, como sendo particulares, confessionais, lembranças de lugares nos quais moramos outrora e que fazem parte da nossa história. Como num sonho turvo, poderíamos divagar… Talvez, sejamos um extrato de imagens que trazemos em nós. Aluga-se lança-nos à uma possível reserva de sensações, a percursos espectrais pelo nosso espírito.

Georgia Quintas

Vista parcial da exposição no MiS - SP

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